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Por quem choramos

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Foto: Alda Carvalho   choramos quando nos emocionamos por alegria ou pura dor ou qualquer sentimento profundo que nos alaga e extravasa   choramos pelo real e pelo que imaginamos por desilusão ou perda do que amamos   choramos por raiva do que não conquistamos por idas sem retorno a lugares onde não fomos felizes choramos  por momentos almejados concretizados ou que não chegaram a acontecer   choramos água verdadeira dando escoamento a essa voz que se derrama sob essa forma primeira do nosso ser choramos pelo passado pelo presente pelo futuro ausente pelos outros quando a empatia surge mais forte Choramos no amor e na morte  mas no fundo  o choro é por nós    

arte involuntária

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Foto: Alda Carvalho   arte involuntária arte natural é na Natureza e no quotidiano que se abriga nos assombros e nos escombros da vida   um gesto um olhar um sorriso um encontro um voo uma cintilação são obras de arte que me comovem e me envolvem   pois é esta arte que me chama  me inflama e qual trampolim me revira e volta e me eleva assim

Aqui os extremos tocam-se *

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  Foto: J. Martins Carvalho Índia um mundo tão diferente Gente, gente e mais gente  caminha com gestos lentos  sem rumo aparente O inesperado e o inimaginável estão sempre presentes e  sobretudo o inenarrável                                                 É-se puxado para todos os lados                                                simultaneamente       O nosso coração quebra-se em pedaços         a todo o momento Aqui os extremos tocam-se  e coexistem simplesmente Impossível ficar indiferente  aos abismos e às  misturas  de cheiros, sabores e gentes Há uma constante exaltação dos sentidos que são elevados à sétima potência           ...

Sublime encantamento

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     Foto: Alda Carvalho   Subir ao ponto mais alto contemplar o precipício a grandiosidade do desconhecido do infindo do que está para além do que os olhos veem ou pressentem   No despenhamento da ravina escorrega o olhar e também o pensamento o silêncio invade o momento sou respiração apenas entre o céu e o abismo a vertigem e o espanto   quedo ali suspensa com medo do vento ou até do pensamento dum mínimo rumor que me seduza para o fundo um sentimento profundo de perigo e contentamento    ao mesmo tempo   um prenúncio de fulgor sublime encantamento  

O QUE ME INSPIRA *

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Foto: Alda Carvalho   os meus poemas são pedaços de vida  entrecruzados no nada são palavras com sentido ou vazias  à espera de serem preenchidas  por alguém são pedacinhos do mundo dispostos à minha maneira mas não são de ninguém porque eu sou uma  e várias ao mesmo tempo o que me inspira é poeira no espaço transportada pelo vento que agarro de muitas formas muitas cores muitos sentires muitos sabores tão iguais e tão diferentes aos de outras gentes sinto assim  o Universo a escorrer   através de mim   * Do meu livro “Sopros de Alma”, 2011, Editorial Minerva    

Redes e enredos

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  Foto: Alda Carvalho À beira do caminho havia uma rede uma rede que apesar da  larga  malha  criava a sensação de separação entre nós e o rio  como uma parede Por vezes poisavam nela pássaros curiosos por nos verem passar aranhas  nela teciam suas teias que em orvalho eram joias a brilhar lianas  enleavam-se nas entrelinhas derramando nela suas flores a rede  ganhava vida e novas cores   À beira do caminho já não há rede nem nela pássaros  teias  ou flores já não há parede  nem nela orvalho entre nós e o rio já não há enredos sente-se  o caminho  mais aberto criando a sensação de liberdade o rio  mais perto  segue sem segredos À beira do caminho  haver ou não rede não é motivo para não caminhar pois na sequência de presença ausência inúmeras paisagens se podem criar  

Ainda a pandemia

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                                Foto: Alda Carvalho                                   Cresce a ânsia de sair de casa abraçar os amigos os parentes enfim todos os entes que sustentam a nossa vida a nossa mente   mas muita cautela há um intocável por aí não basta fechar portas e janelas circula invisível inodoro intangível transportado pelos pés pelas mãos pelo vento ou pelo simples respirar e não possui um guizo ou um apito que o faça anunciar   esse ente traiçoeiro e tão pequeno pode estar em qualquer parte cada vez com mais arte para sobreviver e se multiplicar gerando oceanos de desassossego   para não sucumbir a esta aflição teremos de conter a ansiedade e o medo e inventar dum jeito real ou virtual novas maneiras de abraçar mais formas de nos proteger e fazer do caos renascer a luz da sua grande lição...